Letramento

Contrair pneumonia, há 100 anos, era como um macabro jogo de cara ou cora: 50% das pessoas que a tinham iam a óbito¹.

Nesses mesmos 100 anos, a expectativa de vida quase dobrou, indo de 40 a quase 80 anos no Brasil.

Muito disso, como sabemos, se deve ao advento dos antibióticos, que reescreveram a história das relações entre seres humanos e microrganismos causadores de infecções. O problema, porém, ainda está longe de deixar quem quer que seja confortável.

Pneumonias, infecções do trato urinário (as chamadas ITU’s) e sepses (infecções generalizadas) são responsáveis por aproximadamente 10% das internações no SUS – com letalidade hospitalar, respectivamente, de 18%, 9% e 56%².

Recente pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), no entanto, chama a atenção para significativo aspecto quanto ao desfecho dessas infecções: muito embora, no âmbito do Estado de São Paulo, o número de internações se distribua de modo homogêneo entre as diversas regiões, o número de óbitos hospitalares não: pacientes residentes em determinadas regiões concentram o maior número de mortes.

A hipótese, segundo a infectologista Ana Gales, coordenadora do Comitê de Resistência Bacteriana da Sociedade Brasileira de Infectologia, é que o chamado letramento em saúde é que faz a diferença: pessoas com menor conhecimento a respeito de questões relacionadas à saúde, por terem “menor compreensão sobre cuidados”, tendem a “chegar mais tarde ao sistema”, sem falar que “manejam pior doenças crônicas” – o que favorece o agravamento de infecções. São as carências sociais, mais uma vez, a nos defrontar.

Novos tempos, novos desafios. O atual parece ser o da premente necessidade de se integrar a assistência social aos cuidados com a saúde, democratizando o letramento nessa matéria – o que, ao final, irá otimizar o uso dos recursos hospitalares existentes e, principalmente, transformar para melhor o desfecho clínico de muitos desses pacientes.

¹ Folha de S. Paulo, edição de 05.02.26, artigo do infectologista Carlos Kiffer intitulado “O risco de um mundo sem antibióticos”

² Folha de S. Paulo, edição de 11.02.26, matéria da jornalista Cláudia Colucci intitulada “Estudo revela desigualdade nas mortes por infecções no SUS paulista”.

Miguel Tortorelli, Presidente do Conselho de Administração do Imed.

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